QUISERA EU

Quisera eu entender a saudade da noite, quando o crepúsculo nos lembra, com imagens, o declínio de tudo que poderia ter sido e não foi. Como se com ele fosse se esvaindo todas as possibilidades que o nascer do dia, surgindo lentamente, trouxe.
Quisera eu entender a saudade da noite, quando o crepúsculo vagarosamente, como se a madrugada não tivesse nenhuma pressa, vai enchendo o peito como que explicando que não é preciso correr para que tudo se acabe em um horizonte qualquer.
Quisera eu entender a saudade da noite, quando o crepúsculo surge do nada e transforma em nada, as possibilidades de um dia inteiro. Como se a leveza dos ombros dependesse da capacidade de conseguir sustentar ou não o pôr-do-sol.
Quisera eu entender a saudade da noite que nos limita a esperar como se pudéssemos ter a eternidade entre os intervalos de cada respiração e assim nos refizéssemos exatamente na falta que nos remete ao esforço de continuar todas as lutas, e como lutamos…
Quisera eu entender a saudade da noite, como se não fosse preciso entender que é preciso partir para que o sol renasça de outra madrugada, possibilitando uma nova manhã cheia de sabores e de esperança.
Quisera eu entender a saudade da noite, como quem olha fotografias de um tempo que sequer sabe se realmente existiu, e assim pudéssemos sempre duvidar da dor que é capaz de se comprimir para caber inteirinha dentro do peito.
Quisera eu, entender a saudade da noite que em vão se escurece sem saber se é escuridão que a evidencia ou se as luzes que a escurecem.
Quisera eu entender a saudade da noite, quando nada mais importa senão aqueles que ainda permanecem ao redor, nos lembrando da finitude e fugacidade que é cada presença, cada instante, cada momento. Como se só à noite fossemos capazes de entender que a sucessão de um dia após o outro, assim como o caminho se fazendo passo a passo, está nos dizendo que é preciso que façamos a nossa parte, enquanto é dia, antes que noite se torne apenas uma lembrança, ou uma saudade sem esperança.